É um jogo de tudo ou nada. É o único do qual percebo as regras. Não entendo o "meio-termo", o "vai-devagar, dá-tempo-ao-tempo", o "com-paciência-tudo-se-faz". A vida é para hoje. A paciência é a melhor qualidade dos cobardes. O compasso de espera é a miserável desculpa do medo. A "esperança" no futuro é a clara demissão do hoje, do momento, da vida! Viver para amanhã, é estar morto para sempre, porque não existe futuro, não existe amanhã! Existe hoje e agora! A cobardia vive sempre "para o futuro". O "futuro a deus pertence". Eu quero o que me pertence agora! Neste preciso momento! Não creio num deus de promessas que aponta para longe. Não creio num deus que não saiba dançar, agora! aqui! Não creio! Acreditar é investir no futuro. Investir no futuro é estar morto numa ilusão, é viver no sacrilégio de negação da vida! Acredito nos sentidos, no sentir vivo e presente, na pele, no cheiro, no sabor da vida! Acredito no querer agora, neste exacto momento, porque é agora que o sinto. Viver para o futuro é como olhar a luz de estrelas mortas há milhares de anos - não nos aquecem o coração, não nos arrepiam a pele, não nos deixam lançar o olhar sobre aquele que nos dá a mão. Estar aqui, é olhar nos olhos e sentir a ternura a derreter-nos como o sol. Amanhã? Amanhã posso estar morta!
É por isso que me elevo neste presente e olho em volta e vejo milhares de olhares fixos em ténues luzes de estrelas mortas. E oiço o meu próprio grito no plúmbeo silêncio da escuridão das estrelas. É aí, nesse lugar de futuro triste e vazio, que o meu sol se recusa a deixar de brilhar. É aí que me dou conta da solidão quente e iluminada que se me cola à pele. Porque nenhum olhar perdido nas estrelas mortas de luz me acompanha neste presente iluminado. Resisto ao grito, desisto do chamamento. A Terra está vazia de presente. Todos vivem no futuro. A morte está aqui disfarçada com as vestes de um amanhã luminoso que não existe.